Dia de Sorte

Sabe aquele dia em que temos a sensação de que está dando tudo errado?
 
Lembro-me que acordei assustado e olhei para a janela. Estava fechada, porém as frestas brilhavam de um jeito errado: atrasado!
Oh… droga! – Pensei.
Levantei-me e peguei meu celular no criado-mudo. Desligado, sem bateria. Corri desesperado até a sala e confirmei no relógio do DVD: 7:30.
– Oh… droga – repeti, só que agora em voz alta.
Tomei banho às pressas. E, ao fechar o registro de água, eu percebi que não tinha pego nem a toalha e nem minhas roupas. Fiquei olhando para o nada pensando em como alguém poderia ser assim: tão idiota!
Atravessei quase toda a casa, molhando tudo, e me sequei no meu quarto. Depois que me troquei, tive que enxugar o chão todo com um rodo e um pano-de-chão que resolveram brincar de esconde-esconde, demorei uma eternidade para encontrá-los. Fui até a cozinha e descobri que não tinha café e nem pão velho. Perfeito! Não dava tempo. Fui trabalhar com fome mesmo – decidi que quando eu chegasse lá compraria alguma coisa para comer.
 
Bom, não foi só isso que aconteceu: eu acordei novamente naquele mesmo dia. A diferença dessa vez era uma incrível dor no nariz e na testa.
– Ai!! – reclamei espantado no chão ainda sem entender.
Ao meu redor, muitos rostos de pessoas desconhecidas entrando em foco.
– Você tá bem cara? – Um rapaz me perguntou.
Me levantaram, me deram uma bolacha de água e sal e um pouco de água. Assim que entendi o que acontecera, senti meu rosto ficar quente e provavelmente fiquei roxo de tanta vergonha. Desmaiei. E, pela dor, caí de cara no chão. Foi a pressão baixa por causa da fome, pois ao comer a bolacha, senti a melhora rapidamente.
Que vergonha, cara… que vergonha!
 
– Quase duas horas de atraso! – Meu chefe gritou. – Eu pedi para você se atentar hoje, merda! O cliente é importante e blá blá blá…
Bom, eu dei um amenizada na frase dele. Tinha muito mais palavrões e gritarias mal educadas, mas você não precisa saber disso. O caso é que tive que compensar e acabei ficando até três horas depois do meu expediente. Sozinho.
 
Exausto, caminhei devagar até o ponto e, graças à minha lerdeza tristonha, um pouco antes de chegar, vi o meu ônibus saindo de lá sem mim. Ótimo: era uma linha que demorava de hora em hora entre um e o outro.
Perfeito! Agora só me falta ser assaltado! – Pensei já me arrependendo. Era um lugar perigoso e estava escuro e com pouca gente na rua. Por sorte não aconteceu.
 
Mais sorte ainda foi quando entrei finalmente no ônibus uma hora e meia depois e pisei no pé de uma moça que lia um livro em pé perto da catraca – estava lotado e tive que me contorcer para tirar o pé dali, de cima do dela.
– Aí!!! – Ela reclamou.
Pronto! O constrangimento final!
– Ah meu Deus, me desculpe!! – pedi à ela.
– Tudo bem, meu dia está péssimo mesmo: um pisão não é muita coisa – ela respondeu sorrindo. Digo isso à ela que até hoje: foi ali, quando ela sorriu para mim, que eu me apaixonei. De cara, à primeira vista e de forma definitiva.
– Meu dia também está sendo horrível… – comecei a contar.
Acabamos competindo aos risos para ver quem estava na pior e foi muito engraçado.
 
Bom, se eu não tivesse acordado atrasado, esquecido minhas roupas, enxugado a casa, desmaiado, ficado até mais tarde para compensar e perdido o primeiro ônibus, eu não teria conhecido minha esposa. É algo sobre que reflito sempre.
 
Sabe aquele dia que dá tudo errado? Siga em frente, pode ainda se tornar o melhor dia da sua vida. 

Escrito por Konno


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